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O que o desejo por golpe que derrube Bolsonaro revela sobre nosso tempo

Por: Elite FM
Publicado em 06/04/2021
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Se banalizarmos a ideia de que o inimigo político pode ser igualado a Hitler, então vale golpe militar para detê-lo e facada para matá-lo-Foto: Arquivo Nacional

Popularizou-se aquela frase de Winston Churchill segundo a qual a democracia é o pior regime, exceto por todos os outros. É uma mudança salutar de mentalidade: até há pouco, vigia o espírito de 1988, segundo o qual a democracia é o remédio de todos os males. O Brasil recém democratizado cantava que “pela minha lei/ a gente era obrigado a ser feliz” e pronto, todos seriam felizes. A máxima de Churchill lembra que a humanidade não é onipotente; que, em vez de criar o paraíso na terra, faz umas gambiarras para tocar o barco. E uma gambiarra especialmente exitosa é a democracia liberal, com institucionalidade e igualdade perante a lei. Como a humanidade não é uma coisa quadrada, encaixável em prateleiras ou buracos de planilhas, senão um agregado de animais mais ou menos racionais, não podemos esperar que a democracia seja, em cada momento da história, o melhor arranjo possível. Ninguém esperaria que homens da caverna redigissem uma Constituição e respeitassem as convenções de Genebra, por exemplo. Mas, deixadas de fora as eras brutas e distantes, temos material histórico suficiente para tomar decisões retrospectivas favoráveis a um golpe de misericórdia numa democracia moribunda. É uma espécie de engenharia de obras prontas, porque o leitor de bons livros de história tem muito mais clareza do cenário político do que quem estava no turbilhão dos acontecimentos. A ditadura não é um fim em si mesma, senão uma espécie de tampão usado em períodos especialmente conturbados. Assim, no Brasil temos dois tipos comuns de defensores de ditaduras: os que a enxergam como um remédio temporário (os apologistas do regime militar) e os que a veem como panaceia (os comunistas), embora rebatizem com o nome de democracia e não digam nunca expressamente que ditadura é a sua meta. Mas a gente sabe que é, porque jogam Cuba nas alturas. Mas tudo isso porque estamos no conforto da historiografia reversa, nessa engenharia de obras prontas. No dia a dia, na história sendo feita, precisamos escolher alguns princípios gerais, ainda que não absolutos. Não assassinar opositores políticos é há bastante tempo um importante princípio político – ao menos fora da Baixada Fluminense. E a democracia liberal é a melhor forma de governo já inventada pela humanidade, devendo portanto ser defendida de uma maneira geral.


Fonte: Bruna Frascolla-Gazeta do Povo