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Meritocracia: que bicho é esse?

Por: Elite FM
Publicado em 25/10/2020
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Não há como falar em meritocracia quanto ricos e pobres têm pontos de partida tão distantes, especialmente na educação-Foto: Bigstock/Gazeta do Povo

Daniel Markovits lançou um livro chamado The Meritocracy Trap (“a armadilha da meritocracia”, ainda sem edição no Brasil), com as habituais denúncias contra o “mito” ou a “farsa” da meritocracia. O argumento central é um velho truísmo. Nossas sociedades são desiguais, as famílias entram no jogo e, por óbvio, os pontos de partida de cada um na vida são muito diferentes. O interessante desse debate é que raramente alguém diz quem exatamente defende a ideia sem sentido de que nossas sociedades sejam meritocráticas. As referências sempre se dirigem a uma vaga “cultura popular” que preza o mérito, ou recomenda que as pessoas confiem nelas mesmas e ponham a mão na massa (a cultura da autoajuda é isso, não?). Nos anos 1950, o sociólogo britânico Michael Young escreveu um livro distópico, The Rise of The Meritocracy (“a ascensão da meritocracia”, também sem edição no Brasil), tentando imaginar como funcionaria uma sociedade em que as posições de poder fossem acessíveis aos mais talentosos. A coisa toda era, por óbvio, uma grande ironia. Nossas sociedades são desiguais, as famílias entram no jogo e, por óbvio, os pontos de partida de cada um na vida são muito diferentes. Hayek matou esta charada quando registrou que o mercado não remunera mérito e sim a criação de valor, segundo a “votação” que cada um faz, a cada momento, a partir de suas próprias preferências, quando decide ou não pagar por alguma coisa. E que a condição de nascimento, assim como uma “mente brilhante, uma bela voz, um rosto bonito ou mãos habilidosas (...) são tão independentes dos esforços de um indivíduo quanto as oportunidades ou experiências que já teve. O melhor que conheço diz o seguinte: direitos e deveres iguais para todos e uma base equitativa de oportunidades para cada um. De qualquer forma, a ideia de que cabe ao Estado assegurar uma base mais equitativa de oportunidades a todos é algo que a tradição liberal há muito incorporou. E não penso que ela seja recusável por um pensamento de esquerda igualmente atual. Talvez vá aí a base de algum consenso público para além da querela política e sobre o qual o país tem boas razões para se concentrar.


Fonte: Fernando Schüler-Gazeta do Povo