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O Pandeminion

Por: Elite FM
Publicado em 30/08/2020
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Foto:Pixabay/Gazeta do Povo

 “Em todo homem dorme um profeta e, quando ele acorda, há um pouco mais de mal no mundo...” (Emil Cioran, Breviário de Decomposição). Dos rincões mais inóspitos e (ainda) selvagens da internet, acaba de nascer o termo que, concebido originalmente como piada, decerto entrará para a história como caracterização cientificamente precisa do tipo sociológico contemporâneo por excelência: o pandeminion. Quando a pandemia do coronavírus tiver passado, restará ainda ele, o pandeminion – essa criatura obstinada, inconsolável, plangente, em eterna vigilância contra um eventual retorno do assim chamado “velho normal”. O bardo do pandeminion é Lulu Santos. Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia é o seu salmo preferido. A.C. e D.C. (antes e depois do corona), o modo como passou a separar as fases profana e sagrada de sua biografia. Escrevo “quando a pandemia tiver passado” e logo me arrependo. Pois é possível mesmo que, caso triunfe o pandeminion – ou seja, caso não se lhe retire o diabo do megafone –, a pandemia não acabe jamais. A Covid-19 é a cenoura de burro do pandeminion, aquilo que, preso em sua fronte, e sempre à sua frente, o faz progredir indefinidamente. Há o ciclo do vírus e há o ciclo do fanático. O primeiro mede-se em meses; o segundo, em décadas. Fanático, sim. Pois o pandeminion enquadra-se perfeitamente na fenomenologia de Emil Cioran. Em “Genealogia do Fanatismo”, que compõe o seu Breviário de Decomposição (1949), o escritor romeno descreve o fanatismo como a “tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror”, uma “lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta”. Na condição de fanático – possuído, portanto, por esse “espírito ardente” –, o pandeminion não deve ser confundido com outras espécies da fauna social surgida nos últimos meses. Não se deve confundi-lo, sobretudo, com o surfista de pandemia – o espírito cínico e oportunista para quem a crise atual foi apenas um excelente meio de colher dividendos materiais ou simbólicos, pecuniários ou políticos. 


Fonte: flFlávio Gordon-Doutor em Antropologia-Gazeta do Povo