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Pressa russa por vacina evoca Guerra Fria e pode atrasar fim da Covid-19

Por: Elite FM
Publicado em 19/08/2020
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Sputnik V a primeira vacina a ser aplicada em humanos - Presidente da Rússia, Vladimir Putin- Foto: ALEXEY NIKOLSKY/AFP/Gazeta do Povo

O anúncio foi feito com ares de triunfo de nação predestinada. No meio da semana, a Rússia confirmou o registro da primeira vacina contra coronavírus, mesmo sem todos os testes usuais. Ela se chama Sputnik V, referência ao primeiro satélite orbital lançado pela União Soviética, em 1957, e já começou a ser produzida. A busca por uma vacina se tornou uma versão repaginada, e arriscada, das corridas espacial e nuclear daquele período. Especialistas em saúde pública alertam que essa pressa pode resultar em uma pandemia mais duradoura, ao impedir a alocação mais eficiente das doses para prevenir a Covid-19. Alguns países estão usando seu dinheiro para tentar comprar o primeiro lugar na fila de suprimentos, caso uma vacina experimental se mostre eficaz. EUA, Reino Unido, União Europeia e Japão saíram na frente na corrida para estocar vacinas contra o coronavírus e, juntos, já reservaram mais de 1,3 bilhão de doses - todos esses imunizantes estão em fase de testes. O Brasil fechou acordo em junho para receber 100 milhões de doses da vacina produzida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca. Israel desenvolve sua vacina e diz que pode ter 15 milhões de doses até o fim do ano. Todas as empresas farmacêuticas da Índia, uma potência no setor, fecharam acordo para garantir doses ao país durante a produção."Tal competição estimulou um fenômeno que ficou conhecido como nacionalismo da vacina - a disputa de governos para garantir doses de candidatas promissoras", disse ao jornal O Estado de S. Paulo David Fidler,  ex-consultor jurídico da OMS. Não é só a Rússia que está fazendo isso. Pesquisadores nos EUA, Reino Unido e China também estão alterando regulamentações estabelecidas para acelerar seu trabalho. A China começou a testar em seus militares uma vacina não aprovada. O presidente Donald Trump foi acusado por especialistas de acelerar o processo para obter um imunizante antes de novembro e ter vantagens eleitorais. Mas a Rússia simplesmente atropelou as regulamentações. A vacina russa sequer havia começado os testes clínicos de fase três - quando a substância é testada em milhares de pessoas. O lançamento apressado de uma vacina ineficaz - ou pior, insegura -, argumentam os especialistas, seria um grande revés para os esforços globais de imunização em massa. Este risco levanta dúvidas sobre a real vantagem de um país  ter a vacina primeiro. Para a Rússia, liderar a corrida das vacinas é um caminho para uma maior influência geopolítica e evitar a escolha binária de Washington ou Pequim. Segundo Kirill Dmitriev, chefe do fundo de riqueza soberana da Rússia, que bancou o desenvolvimento da Sputnik V, ao menos 20 países querem 1 bilhão de doses da vacina. A verdade é que a vacina tão esperada virá com amarras políticas. E a pressão será tão forte que os apelos por equidade vindos de países de baixa renda não terão efeito. A vacina que tiver o melhor balanço entre preço, eficácia, segurança e logística, é a vacina que vai dar certo. E talvez seja mais de uma porque elas podem ser parecidas. A Rússia vai começar a aplicar a vacina em setembro para o seu povo. Eficácia e segurança serão a prova para o mundo. A Rússia daria um tiro se não no escuro, na penumbra ? O certo é que algum país deverá ser o primeiro. 


Fonte: Gazeta do Povo