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O lado bom do pânico envolvendo o coronavírus

Por: Elite FM
Publicado em 29/02/2020
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Daqui a alguns meses escaparemos ilesos do que hoje parece um bicho-papão. E, do outro lado deste caos, caberá a nós encontrarmos um sentido e uma ordem.| Foto: Alissa Eckert/Centers for Disease Control and Prevention/AFP/Gazeta do Povo

Alguns podem considerar estranho alguém falar em “lado bom” de uma pandemia e do pânico que a acompanha. O autor ou, pior ainda, pode ser acusado de querer tirar proveito filosófico, por assim dizer, de uma verdadeira tragédia para a saúde mundial. Trata-se, contudo, de uma consequência lógica. O coronavírus já serviu como matéria-prima de reflexão sobre o poder totalitário da China comunista, que em janeiro pôs milhões de pessoas em quarentena, transformando megalópoles em cidades-fantasmas. Depois, serviu para pensarmos esse curioso e deplorável “fetiche da peste” que nos acomete de tempos em tempos, dando origem a um abjeto desejo de purificação da Humanidade. Agora que a doença se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil, disseminando consigo o pânico que já afetou desde o mercado de commodities até a bolsa de valores e obrigou o ministro da Saúde a se pronunciar, nada mais natural, portanto, do que tentar tirar deste cenário de caos (que deve se intensificar à medida que o inverno se aproxima) algo de bom. Porque é muito provável que daqui a alguns meses quase todos nós escaparemos ilesos do que hoje parece um bicho-papão onipotente. E, do outro lado deste caos, caberá a nós, os muitos sobreviventes, encontrarmos alguma espécie de sentido e ordem.  O lado bom do pânico em torno do coronavírus, portanto, é que ele nos obriga a pensarmos em nossa mortalidade. E aqui, sem me alongar demais, já aponto o grande paradoxo que é a necessidade de pensar em algo que está estampado todos os dias nos jornais, na TV, nas redes sociais e, de uma forma tão explícita que até anestesia, no cinema. A morte, ainda que onipresente, nos é cada vez mais estranha. Porque, ao mesmo tempo em que estamos acostumados a um cotidiano de crimes, também nos sentimos à vontade com todo um noticiário científico que fala em velhices saudáveis, mortes cada vez mais tardias e até em delírios de imortalidade. Somos levados a crer que a morte existe só para o outro – e um outro distante física e socialmente. Até outro dia, a morte por causa do coronavírus era algo que pertencia ao exótico mundo oriental, onde pessoas se alimentam de animais silvestres e trabalham por uma ninharia em fábricas abarrotadas de gente. A mesma coisa acontece depois de acidentes de avião e catástrofes naturais distantes. A morte, tornada notícia, pode até gerar indignação, como no caso do rompimento da barragem de Brumadinho, mas ela é essencialmente antisséptica: mais um conceito do que umarealidade dolorosa e íntima. A ameaça de uma pandemia, mesmo que as estatísticas demonstrem não se tratar de um vírus especialmente letal, nos coloca diante do espelho e nos faz evocar Sêneca, para quem viver só tinha sentido como uma preparação para a morte. O sábio romano também dizia que viver longamente era fácil. Difícil era morrer como uma pessoa honrada. 


Fonte: Paulo Polsonof Jr.Gazeta do Povo